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Troféu de Moto-ralis Turísticos 2022: Da Serra da Estrela a Góis

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24º Troféu de Moto-Ralis Turísticos - BMW Dunlop FMP

Os motoclubes de Góis e da Covilhã voltaram a repetir a excelente parceria do ano passado, montando uma organização a ‘meias’ – que pode e deve ser exemplar a nível nacional – invertendo agora o percurso da rota, começando este ano na Serra da Estrela para terminar perto de Góis.

Deliciaram-se os 80 participantes em 58 motos, vindos de vários motoclubes de Guimarães a Albufeira, nesta terceira jornada do 24º Troféu de Moto-ralis Turísticos BMW / Dunlop da FMP.

Desta vez, o MC Covilhã-Lobos da Neve ‘ficou’ com a 1ª etapa, no sábado, 25 de junho, e o Góis MC assumiu a etapa de domingo. Cada um idealizou o percurso, perguntas, surpresas, visitas e controlos. Até os road-book (curiosamente ambos feitos por meninas) tinha grafismo e inspiração diferente.

Como cada vez mais a hotelaria marca o epicentro de um evento destes, os clubes viram-se na obrigação de passar a noite de sábado para domingo também na Covilhã, dificultando a viagem para Góis de um moto-rali que se queria em linha. Mas conseguiram tornear muitíssimo bem a questão.

O sábado foi excepcional, pelo vale do Zêzere e essencialmente no concelho do Fundão, que cada vez nos surpreende mais, com visitas diversificadas e riquíssimas.

O domingo, bem rolante por estradas sinuosas e sem trânsito, consolou os motociclistas pelas bucólicas aldeias de xisto da Serra do Açor.

E o tempo, esse factor primordial para o sucesso de qualquer evento? 5 estrelas.

Apesar de já estarmos no verão, foi primaveril e fresco, com temperaturas de encomenda. Aquilo que o 24º Portugal de Lés-a-Lés precisou, duas semanas antes, onde, apesar de decorrer na primavera, foi fustigado por temperaturas tórridas de verão.

É também um consolo ver estes dois motoclubes a trabalhar juntos. Quase que se fundem. Identificam-se bastante, inserindo-se bastante na sociedade e sendo uma mais valia para os seus concelhos e respectivas populações, com direcções e elementos imaginativos, esforçados e de excelente trato. Parabéns ao MC Covilhã-Lobos da Neve e Góis MC.

A hospitalidade de ambos é tal, que na 6ª à noite já quase toda a caravana se sentava à mesa na Covilhã, com destaque para os 20 elementos do MC Albufeira.

E bem dispostos, no sábado de manhã, os motociclistas lá foram à descoberta para sul, ao longo do Zêzere, na direcção da Serra da Gardunha.

As Minas da Recheira abriram o dia de cerca de 150 km, com descida aos túneis escavados em tempos para extrair o volfrâmio, esse mineral que só funde a mais de 3000 graus e por isso tão útil para o armamento e que está a ser de novo procurado. Mas esta mina está diferente, vocacionada para o turismo, com suites, restaurante e adega nas suas profundezas, para além de dar a conhecer a sua história e da vida difícil dos mineiros.

A Casa dos Bombos, em Lavacolhos, pôs o moto-rali a bombar como nunca visto em 25 anos de troféu. Interessante e ensurdecedor.

A Casa das Tecedeiras ensinou-nos, na bonita e típica aldeia de Janeiro de Cima, a complicada e trabalhosa transformação do linho e como pode ser imaginativo o artesanato. De toque mais feminino, foram elas que gostaram de experimentar o tear.

A Casa da Cereja, em Alcongosta, espantou-nos pela modernidade e eloquência com que nos ensina a origem e diversidade deste fruto pelo mundo todo e como se produz com qualidade acima da média nas encostas da Gardunha, entre castanheiros.

Isto foi tudo de enfiada? Não! Pelo meio fomos chafurdar ao Zêzere, junto à Roda de Janeiro, na Praia Fluvial de Janeiro de Cima. Para além do piquenique havia pranchas de paddle à espera dos mais equilibrados.

As águas já mornas do rio abriram o apetite e partimos desta peculiar aldeia de xisto ainda mais bem compostinhos.

E ainda houve tempo para batalha de água entre o pelourinho e antiga casa da câmara de Castelo Novo. A prova de bons vinhos e queijos da região foram aperitivo para recriações de farwest, matrix e outros ataques à pistola… de água.

A etapa, memorável, terminou na Casa de Poesia de Eugénio de Andrade, poeta que nasceu batizado de José Fontinhas, em 1923, nesta aldeia de Póvoa de Atalaia.

Curiosa e divertida, a ‘caravana ecológica’ do hotel ao restaurante, já na Covilhã, a pé, com os presidentes Nuno Bandeira e Rui Santos a encabeçarem o grupo e desfraldando orgulhosamente as bandeiras respectivas dos seus motoclubes de Góis e Covilhã.

O domingo, 26 de junho, começou mais cedo que o costume. Pelas 8.30h da manhã já os motores ronronavam pelas curvas deliciosas e despovoadas da N230 para Unhais da Serra. Isto sim, é um moto-rali turístico.

E o festival curvilíneo continuou para Teixeira e Vide, detendo-se no Poço da Broca e logo a seguir em Foz d’Égua, dois espaços onde poderíamos ficar o dia todo, pela beleza das ribeiras, da Natureza e de como o homem se adaptou aos locais, dando-lhes o seu toque. Parabéns a Carlos Borges, pelas pontes e casinhas de xisto nas margens da Ribeira de Égua.

Já com a bifana do Paulinho no papo, a passeata continuou agora num sobe e desce retorcido de aldeias edificadas com dificuldade nas encostas do Açor, onde as suas ruas estreitas e quase sempre à sombra nos saudavam com fartura de xisto e camponeses a controlar horários e colocando à prova a atenção dos mototuristas.

Chãs d’Égua, Piódão, o memorial de Miguel Torga e Relva Velha testemunharam a nossa passagem até à agradável frescura da Mata da Margaraça, pequena floresta dominada pelo raro azereiro (prunus lusitânica) e detentora de uma biodiversidade incrível.

Sim, há uns séculos, todas estas serras eram cobertas com esta densa e húmida vegetação, resistente a fogos, criadora de fontes de água naturais, habitat de imensa fauna e doadora de saúde mental a rodos.

Mas o corte continuado dos carvalhais e árvores nativas sem compensação de reflorestação, a plantação de monoculturas gigantescas e os seus inevitáveis fogos mais o abandono das terras e proliferação de espécies invasoras, faz com que estas serras incríveis tenham agora um outro ar.

Estávamos a terminar esta etapa de mais de 100 km, na aldeia de Benfeita onde se soube pela primeira vez em Portugal do fim da 2ª Grande Guerra. Desde então, a 7 de maio, a sua torre sineira repica 1620 badaladas, uma por cada dia que o conflito durou.

Foto de grupo, almoçarada, entrega de prémios e agradecimentos, e ala tudo de novo para a estrada rumo à casa de cada um.

O MC Albufeira trouxe tantos e bons motociclistas, que dominaram os pódios deste moto-rali turístico. No sábado foi tudo deles, e no domingo, quase.

O Vítor Olivença, a lutar pelo tetra, mostrou-se de novo o mais regular. João e Carla Krull sucederam-se e finalmente aparece alguém de outro clube: em terceiro, a Susana Cardigos, dos Motards do Ocidente.

Mas este evento foi notoriamente daqueles onde todos ganharam, e muito. O Troféu regressa à região já daqui a duas semanas, com organização dos dinâmicos MK Makinas de Tábua.

FP Motociclismo