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Liliana Cá: A vida da atleta que vai a Tóquio e bateu o recorde nacional

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A lançadora de disco Liliana Cá está em alta depois de obter os mínimos para os Jogos Olímpicos e de ter batido o recorde nacional da modalidade, que já vigora há 23 anos.

É uma das 7 filhos de um casal guineense, mas já nasceu em Portugal, mais concretamente no Barreiro; depois de passagens pelo antigo Centro de Atletismo do Vale da Amoreira (CAVA) e pelo Grupo Recreativo Quinta da Lomba, Liliana “virou-se” para clubes da Margem Norte como o Sporting, o Benfica e o Novas Luzes.

Sobre o “bilhete” para Tóquio’2020, a lançadora lusa refere que “não estava nada à espera; só comecei a ficar esperançosa que ia conseguir mínimos depois da última competição no Brasil [ndr: o Grande Prémio do Brasil, em São Paulo, no mês de dezembro de 2020] em que a minha melhor marca foi nula, mas mesmo assim pedi para medir e disseram-me que tinha sido 62,65 metros; disse para mim mesma «não é por 50 ou 60 centímetros que vou desanimar»; depois disse ao treinador, ele fala muito com os atletas, começou a ver o que faltava, o que funcionava para mim e realizou um plano de treinos; fomos fazer os testes, viu que estava pronta e só precisava de competir para fazer a marca; daí, as coisas começaram a sair e eu nem queria acreditar”.

De todo este processo olímpico e da quebra do recorde, Liliana só tem pena de uma coisa: “Quando eu era nova treinava com a Teresa Machado em estágios, e ela dizia que eu tinha talento, que podia bater o recorde nacional, que ficaria contente se eu batesse a marca; quando senti que estava perto fiquei contente, só que nessa altura a Teresa já estava muito doente [ndr: morreu de doença oncológica há cerca de 1 ano] e não foi aquele entusiasmo que queria transmitir; agora que bati, foi uma emoção muito grande, não estava à espera de chegar aos 63 metros, quanto mais aos 66 metros”.

Mas o Lançamento do Disco não foi a primeira modalidade de Liliana Cá, pois primeiro ainda tentou as provas de estrada, de corta-mato e o Lançamento do Peso, mas fixou-se no Disco quando bateu o recorde nacional júnior em 2003 e participou nos Mundiais do escalão em 2004.

Liliana vivia então uma fase de grande expansão na sua carreira, Teresa Machado já estava em final de carreira, e a jovem atleta fazia grandes resultados em meetings internacionais; entretanto apareceu Irina Rodrigues, vários problemas pessoais e apesar de ter sido campeã nacional em 2009 e 2010, decidiu “arrumar os discos”.

“Eu já estava um pouco cansada, mas mais por injustiças que tinham acontecido e também por problemas pessoais”, assim decidiu ter o primeiro filho (em 2011) e foi viver com a mãe para Londres (Inglaterra), onde encontrou o New Ham & Essex Beagles.

“Eu encontrei um clube simpático, deu-me saudades e voltei a tentar, mas não gostava muito dos métodos de treino, era só duas vezes por semana e o treinador basicamente só me via durante os lançamentos e não passava planos de treino para fazer sozinha; não gostei e acabei por parar”.

Em 2012 houve um regresso fugaz a Portugal, mas depois foram mais 4 anos em Inglaterra: “Mandaram-me um mail a perguntar se queria ir para o Benfica e eu aceitei; no entanto começaram a acontecer algumas confusões e não acabei o contrato, que era só um contrato de boca, nunca assinei nada”.

Depois da temporada em Inglaterra, Liliana encontrou Luís Herédio, treinador que fez com que a atleta lusa voltasse ao Atletismo.

“Não estava a pensar voltar ao Atletismo, mas encontrei o Herédio e quando ele olhou para mim disse: «Liliana estás tão cheínha, tão gordinha», e aí eu expliquei que tinha dado à luz o meu segundo filho há pouco tempo e ainda estava a recuperar a forma; perguntou-me se eu queria voltar para o Atletismo mas recusei, ele voltou a reforçar o pedido, disse que eu podia ir para o Novas Luzes, começar com calma e decidi começar”.

Liliana continuou dizendo que “ele teve muita importância para mim, começámos no final de 2016 e em dezembro a minha mãe faleceu, mas ele não me deixou ir abaixo, disse que tinha dois filhos para criar e estava sempre presente como amigo; dizia-me até «quando te sentires com raiva ou tristeza, anda para o treino e descarrega tudo»; houve até uma altura em que não tinha comida em casa e a comida que ele levava para ele, dividia comigo, para não ficar fraca”.

Sem grandes metas, Liliana Cá só quer ir a Tóquio e “treinar e focar”, embora saiba que tem possibilidades de chegar à Final do concurso de Lançamento do Disco, já que é segunda do “ranking” mundial, atrás da cubana Yaimé Pérez. No entanto espera também que Irina Rodrigues se qualifique, porque assim “seremos duas contra o resto do Mundo”.

Liliana espera agora esquecer o passado difícil, que começou em Portugal porque os seus pais vieram para cá, e procurar um futuro melhor.

“Os meus pais vieram da Guiné-Bissau e ambos tinham documentos portugueses; assim, mandaram o meu pai combater contra os conterrâneos e acabou por perder uma perna e mandaram-no para o Hospital Militar para se tratar”, refere a atleta.

A pandemia de Covid-19 também marcou a vida da atleta, que tem ficado em casa na maior parte dos dias, mas Liliana referiu que as coisas têm um lado bom e que o adiamento dos Jogos vai permitir melhorar “a técnica e a estrutura física” e também permitir que os portugueses vejam na televisão as provas e apoiem mais o Atletismo”.