Lenine Cunha, o recordista de medalhas abre as portas da sua vida

Lenine Cunha, o recordista de medalhas abre as portas da sua vida

Desde a Meningite contraída aos 4 anos até aos objectivos futuros, Lenine Cunha revela os seus segredos, numa entrevista pessoal e emotiva

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Lenine Cunha

O para-atleta português Lenine Cunha, que detém o recorde mundial do Atleta de Alta Competição mais medalhado, abriu as portas da sua vida e contou algumas das suas passagens mais trágicas.

Em entrevista ao Sports Partner, o multi-facetado atleta começou por dizer que a sua carreira começou aos 4 anos, quando teve um ataque de Meningite que lhe “roubou” a infância e trouxe-lhe dificuldades na escola.

A doença manifestou-se de forma rápida e sem que nada o fizesse prever, como conta o atleta: “Dormia a sesta, como era habitual naquele tempo, e quando a minha mãe me foi ver já estava num estado muito critico; fui de imediato para o hospital, conseguiram-me salvar, mas perdi a fala, o andar, a memória, a visão e a audição, para além de me ter afectado o lado esquerdo da face e a cabeça, a nível intelectual”

O papel da família foi “crucial” para conseguir todo o seu desenvolvimento, quer pessoal, quer profissional; sem a família “não seria o que sou hoje, ensinaram-me a viver com as minhas limitações no dia-a-dia, tornando-me na pessoa autónoma que sou hoje”, refere Lenine Cunha, visivelmente emocionado, acrescentando que “a minha mãe sempre me incentivou para fazer Desporto, pois ia-me desenvolver fisicamente e socialmente; de facto, as minhas 183 medalhas não seriam possíveis sem o apoio familiar”.

Sobre a escolha do Atletismo, o atleta português refere que “foi fácil escolher o Desporto, ou a modalidade, pois o meu tio foi campeão nacional dos 400, 800 e 1500 metros, em 1952; para além deste facto, duas das minhas primas correram com Rosa Mota e Aurora Cunha, e contavam maravilhas da modalidade”.

A grande motivação de Lenine é a sua mãe, que faleceu em 2016 vítima de cancro, pois “foi ela que me iniciou nisto; se hoje tenho 27 anos de carreira, a ela o devo, mas nem sempre foi assim, pois no início não ligava nenhuma ao desporto e só corria porque me fazia bem à saúde; quando entrei nisto a sério, em 1999, apaixonei-me pela modalidade e hoje adoro-a”.

Relativamente às competições, Lenine recorda “a primeira, na Suécia, onde ganhei 3 medalhas, uma das quais de Ouro, numa das várias vertentes do Triplo Salto; no mesmo ano fui aos Jogos Paralímpicos Sidney’2000 e como era o mais novo fui bastante acarinhado, acabando por ficar em 5º lugar no Salto em Comprimento; apesar de ter dito que em 1999 comecei a apaixonar-me pela modalidade, só após os Jogos de 2000 é que comecei a dedicar-me completamente a sério”

Apesar de gostar bastante da modalidade, o atleta português pensou em desistir, porque “não havia apoio monetário e como também não tinha emprego tudo era complicado; de repente, sem esperar, apareceu um patrocinador e comecei a ter mais motivação; fui aos Jogos Paralímpicos de Londres, consegui a medalha de Bronze e dei mais um passo rumo às 180 medalhas”.

Por falar em medalhas, Lenine recorda-se “da primeira, que como já disse, foi quando me tornei Campeão do Mundo do Triplo Salto, tinha 16 anos e foi uma sensação incrível ouvir o hino e ver a subida da bandeira e do nome de Portugal” e também “da conquistada no Qatar em 2015, num período muito difícil da minha vida”.

O atleta mais medalhado do Mundo diz também que “é um elogio enorme, este marco que me atribuem, mas eu dedico-me a 100% ao Triplo Salto e com determinação vou chegar ao meu objectivo pessoal e profissional, que são as 200 medalhas”.

Sobre a sua participação nos Jogos Paralímpicos Rio’2016, Lenine refere que “não correu nada bem, pois estava muito limitado devido a uma lesão; dias antes do Campeonato Europeu lesionei-me num joelho, enquanto treinava, mas mesmo assim quis ir ao Euro e em boa hora o fiz, pois ganhei a medalha de Bronze; depois foi o «reverso da medalha», pois em Portugal confirmou-se que a lesão era uma ruptura, que me fez parar durante mês e meio e limitou-me nos Jogos; se não tivesse ido ao Euro, podia ter conquistado uma medalha no Rio, mas as coisas não acontecem por acaso e por isso acho que no futuro as coisas vão-me correr melhor e espero chegar às 200 medalhas”.

Falando em futuro, Lenine considera que “daqui para diante tudo pode acontecer, mas o meu objectivo principal é chegar às 200 medalhas e depois dedicar-me ao meu clube, o Sport Clube Lenine; sei que está um pouco estagnado, devido à falta de atletas (os jovens não gostam muito de Atletismo e menos de Triplo Salto), mas já garantimos uma contratação no início de 2017; para além do clube e das medalhas quero dar o meu melhor nas grandes competições (Campeonato da Europa de Pista Coberta, Campeonato do Mundo e Campeonato da Europa), para esquecer a desilusão que foram os Jogos Paralímpicos no Brasil”.

Lenine Cunha termina as suas declarações, revelando que se sente “muito forte” e “motivado” para alcançar todos os objectivos neste ano e nos futuros, pois não vai desistir da modalidade a curto prazo.